sábado, 10 de fevereiro de 2018

PALAVRAS E EXPRESSÕES: MEU PARQUE DE DIVERSÕES




            Há poucos dias saí com amigas num adorável encontro de alegres comadres eternas meninas. Como não nos víamos já há algum tempo, nos abraçamos e uma delas me perguntou se ela não parecia abatida, ao que eu respondi divertida que de fato estamos todas meio “depauperadas”. Rimos deste termo arrancado não sei de qual departamento de minha mente e daí por diante usamos esta palavra para tudo, por exemplo, eu contando de minha cozinha que ficou pronta e que no momento não posso ter nenhum gasto porque estou depauperada financeiramente. Enfim, a partir daí passamos a usar o “depauperado” para designar qualquer coisa. Mas outros termos e expressões vieram à baila. Uma delas tirou do fundo do baú a palavra “panca”, fulana tem panca, é pancuda, expressão usada nos anos 70 e lá vai pedrada. Quem não se lembra de chamar de “pão” um moço bonito? Rimos pra valer.    
            Depois em casa fiquei puxando por palavras e expressões usadas por minha mãe: “esta é de gloriosa”, significando algo inusitado. “Você me mude o nome se ...”, querendo dizer que duvidava muito que tal coisa acontecesse. “fulano tava chaleirando cicrano”, isto é, puxando o saco. “Ela me passou um respe”, querendo dizer “me passou uma reprimenda.” E por aí fui mergulhando no precioso dicionário de expressões que herdamos de minha mãe e me deliciando com as lembranças. Meu pai já costumava usar o adjetivo “superior” para tudo que fosse ótimo, como: “o sorvete está superior”, e muitas vezes ele dizia que “no início tudo são flores”, referindo-se ao casamento que se torna difícil com o tempo.
            Tenho paixão pelos ditados populares. Meus preferidos entre milhares de outros que gosto: “fechar em copas”, “enfiar a viola no saco”, “não falar em corda na casa de enforcado”, chamar às falas”, “favas contadas”. Nossa! São tantos e ótimos!   
            Também gosto muitíssimo das frases de São Paulo: “A figura deste mundo passa”, “não se ponha o sol sobre sua ira”, “tudo posso, mas nem tudo me convém”, “não faço o bem que quero, mas o mal que não quero”, e outras que vivo falando e escrevendo.
Cada família, cada turma de amigos e cada comunidade de cada época tem suas expressões e seus códigos, e essas expressões e códigos vão cedendo o lugar para outros novos. Novos termos e códigos já esperam ansiosos na fila para serem usados pelas crianças e jovens de hoje, e tenho que confessar que muitos eu nem conheço. Já li que a vida eterna não existe, que o que existe mesmo são as pessoas eternizadas pelo que diziam e como diziam, pelas expressões que usavam. Minha mãe e meu pai são lembrados por nós pelas suas falas. É fato (mas eu acredito na vida eterna).   
            A linguagem e a linguística com essa pluralidade de códigos me impressionam, me espantam e me causam um contentamento indescritível. Adoro Roland Barthes, linguista e filósofo que afirmava que “o prazer da linguagem jamais foi seriamente estimado”. Barthes dá um exemplo sobre a linguística que se ocupa com as mensagens: três tabuletas em três casas, cada uma com uma expressão e uma só mensagem – “cão bravo”, “cão perigoso” e “cão de guarda”. Na verdade a mensagem é apenas uma: “Não entrem”. Porém nada é inocente. Certamente cada placa tem algo a ver com o proprietário. Barthes enfatiza que “a linguagem não é mero instrumento do homem; é ela que constitui o homem.” Show, né gente? Eu acho.

domingo, 14 de janeiro de 2018

FELICIDADE SOBRESSALENTE














Temo ser feliz demais
Trato como hóspede minha felicidade
Sem muita intimidade.
Sei que sempre traz como lhe apraz a mala pronta.
No entanto visto minha melhor roupa
Ponho flores frescas na mesa
Faço poemas e pronto.
Mas se ela quiser, se assim lhe aprouver,
Deixo que bata asas
Como deixo com carinho que voe um passarinho.
Compartilho a felicidade em pedacinhos
E quando ela parte
Tenho sempre comigo alguma dose sobressalente
Que milagrosamente
Dura eternamente.



AQUI E AGORA



Já li inúmeros artigos e assisti a palestras que falam sobre “ser feliz aqui e agora”. Obviamente estamos carecas de saber que só temos o presente, mais precisamente o aqui e agora, tipo neste segundo, sem tirar nem por. O que já foi já foi e o que virá ao futuro pertence. Bem, tudo isso na teoria porque na prática ninguém fica feliz só por saber que só se é feliz aqui e agora. É uma luta, um treino, uma prática diária, de momento em momento. Na vida sempre estamos lidando com algo difícil e dificilmente transformamos dores em flores. Quando estou passando por algum apuro, medo ou decepção, minha vontade mesmo é aquela de apressar o filme e pular para a parte seguinte como fazemos ou podemos fazer ao assistir a um drama pungente, um filme de terror ou de suspense. Há algum tempo eu estava assistindo ao seriado com episódios isolados, o “Black Mirror” e fiz isso, fui adiantando o filme usando o controle remoto. Ah quem me dera ter um controle remoto para a vida real.
Não, aí vale o nosso controle mesmo. Não há outro. Acordei preocupada. Afinal, quem não acorda preocupado neste mundo maluco? Ameacei ficar com pena de mim, desenterrei águas passadas, remoí coisas que ouvi, coisas que gostaria de ter falado e não falei. Ameacei entrar num redemoinho de tristezas e amarguras. Aí lembrei-me das palestras do “aqui e agora”. Não custa nada tentar. Vamos à prática. Não vou piorar meu estado de espírito, ah, não vou fazer isso comigo não. De jeito nenhum. No way.
Meu marido fazia algo cheiroso para o almoço. Eu abri um vinho assim meio de semana, sem nada a comemorar. E abri um sorriso, a princípio, um sorriso torto, é verdade, mais parecia um esgar. Depois foi se endireitando. Falamos de rotina e dos homens das cavernas. Ponderamos se eles teriam ou não uma rotina em seu cotidiano como nós temos. Eu apostei que sim. O homem de Neandertal havia percebido que era melhor caçar de manhã e descansar pela tarde. Traria sua caça, acenderia o fogo, reuniria a família e todos comeriam ao redor da fogueira. Se falavam, grunhiam ou emitiam qualquer som, tanto fazia, eles se comunicavam de alguma maneira. Meu marido acrescentou que ao cair da noite, quando a luz da lua clareava a caverna (ai que lindo!), o homem primitivo decerto transaria com sua companheira ou companheiro, e depois talvez iria escrever sobre seu dia de caça nas paredes toscas de pedras, tal como fazem os escritores e poetas de nosso século em seus computadores. Nem todos os homens das cavernas eram escritores, assim como hoje nem todos são. Rimos de nossas conjeturas, nos inebriamos com vinho. Enfim, mandei a bruxa de volta pra floresta. Rir de bobeira tomando vinho em pleno dia de semana não é felicidade, apenas um momento feliz, se é que existe alguma diferença.
Amanhã começa tudo de novo. Sei que outras bruxas virão ao meu encalço. Bem, teremos que aprender a lidar com elas sem controle remoto. É possível viver um alegre dia comum, e talvez em algum dia do futuro nos lembraremos dos dias comuns e perceberemos que éramos felizes sem ter ganhado na loteria, nem vencido nenhum concurso, mesmo sem ser a 1ªbailarina do American Ballet Theatre ou ser uma contista como Alice Munro. A felicidade, se é que existe, é sim aqui e agora. 
     

sábado, 30 de dezembro de 2017

PARA O ANO NOVO



 
 Neste novo ano vou ser mais comedida
Vou mudar minha vida
Vou falar menos, ouvir mais,
Fugir das coisas sempre iguais.
Vou estudar filosofia
Ou quem sabe etimologia
Também fazer um curso de corte e costura
Ou de poesia
Conhecer o Everest
Ou mudar pra Budapest
Na verdade
Queria mesmo vez ou outra ouvir o barulho do mar.
Só não quero perder o encanto
Nem o espanto
De que preciso tanto
Pra sonhar e deixar a vida rolar.



sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

"LUCY IN THE SKY WITH DIAMONDS"



Mais um ano que se vai, mais um novo ano que vem. É claro que ao amanhecer do primeiro dia do novo ano, tirando a ressaca da noite de champanhes e comidas apetitosas seremos os mesmos, apenas um pouco mais velhos. Quando muito, trarei a lista de metas, projetos e desejos na primeira gaveta da mesinha do computador. E como o tempo agora passa aceleradamente por não sei qual fenômeno de aceleração planetária que já me disseram, lá para maio ou junho certamente constatarei que as metas e projetos não saíram do papel, tampouco os desejos terão sido realizados.
Não vou prometer nada não, contudo, sem querer ser assim tão pessimista, alguns desejos podem sim muito bem serem realizados, talvez, quem sabe, tomara. Afinal, a vida é sempre surpreendente. Não vamos murmurar. Tá ruim, mas tá bom, como diz meu marido.
Sobre os desejos, também não quero nem devo sair por aí dando a conhecer os anseios do meu coração. Sou um livro quase aberto, normalmente falo tudo em minhas crônicas, bem, quase tudo, parodiando Danuza Leão. Como a vida vai aos poucos se transformando numa estrada estranha e estreita, meu desejo para o ano, se fosse possível, seria embarcar numa nave espetacular ou como diria Raul Seixas, num disco voador para onde ele for e enxergar bem de longe meus problemas como meros pontinhos bobinhos no meio deste universo fenomenal. Problema é o sofrimento dos milhares de refugiados que este ano migraram como puderam fugindo da guerra, do preconceito e da maldita intolerância. E o sofrimento das crianças? Fala sério!
Voltando ao tal disco voador, eu chegaria a um planeta misterioso e fascinante onde obviamente eu poderia viver feliz como sempre quis, tal qual em Pasárgada. Já pensou? O rei em pessoa vem me receber, e me garante que ali eu serei cem por cento feliz. Ali minha vida será uma grande aventura, nada de coisas banais, só geniais.
Diz ainda o rei, meu amigo, que poderei andar de bicicleta, mas confesso envergonhada que não sei mais como se anda nessa geringonça de duas rodas. Já nem me lembro. Mas ele me rebate dizendo que aqui o tempo volta até quando a gente quiser, portanto saberei pedalar como quando era criança. Sendo assim topo subir até no pau-de-sebo, já perdi o medo de qualquer coisa. Menos de uma: montar em burro brabo! Isso não! Mas tomarei banhos de mar! Ah que delícia! Brincarei de espirrar água para o céu e as gotinhas se transformarão em diamantes e eu me sentirei como “Lucy in the sky with diamonds”.
Nunca mais serei triste. Quando de noite me der vontade de chorar, o rei em pessoa virá me alegrar. E trará flores de cores primores que nunca vi antes. E me contará casos tão engraçados, que me farão rir tanto, tanto, desses risos de criança que não param nunca, que fazem a gente chorar de tanto rir.
Falando sério, o que eu mais desejo para o novo ano? Viver uma vida em cada dia, embebedar-me de fantasia, viajar no tempo, deletar os sonhos maus, descobrir quem sou, ser feliz custe o que custar, amar, amar e amar em Pasárgada ou qualquer outro lugar, dentro ou fora de mim, onde sempre haverá risos mil mesmo no meio das tristezas, dificuldades, lágrimas e ainda que seja alguma pálida alegria que a vida nos presenteia em kits de sabedoria!  “Que venga el Año Nuevo con mucha inspiracion”!