sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

O MELHOR DA FESTA




            Houve um tempo quando crianças em que éramos presenteados com algo inesquecível: a famosa cesta de natal. Não era como essas cestas modernas. Havia algo mágico nelas, ou será que a magia é que morava em nós?
Logo que dezembro despontava, já esperávamos, ansiosos, a cesta que meu pai encomendava. E quando chegava era o início da festa. Olhávamos para ela, ainda fechada aos nossos olhos ávidos pelos tesouros que continha. A cesta de vime, à semelhança de uma arca de joias raras tinha em seu interior celofane colorido e numerosas tiras de palhinhas enrodilhadas que guardavam guloseimas. Não me lembro agora da marca da cesta, talvez “Amaral” ou “Columbus”. O que mais me aguça a memória são as palhinhas que escondiam os tesouros contidos. E a cesta ficava lá na sala de nossa casa da infância, encostada em um canto da parede esperando ser aberta na véspera do Natal. A espera do Natal era dolorosa, porém deliciosa, pois de fato o melhor da festa é esperar por ela. Em vão grudávamos os olhos pelas frestas da cesta, tentando vislumbrar o que havia dentro.
            Enfim chegava a noite do dia 24. Após angustiante espera meu pai abria  solenemente a cesta e nós arregalávamos os olhos diante do tesouro finalmente exposto: nozes, chocolates, patês, doces, compotas, caixas de bolachas recheadas, latas de doces, vinhos. O mais empolgante era descobrir uma noz retardatária e escondida ou mais uma latinha esquecida pelo entrelaçado da palhinha. Cada um de nós se apressava a encaixar uma noz no vão da porta para que fosse quebrada. Logo surgia o “croque” de várias nozes sendo esmagadas. O gosto nem era assim tão espetacular, mas o ruído e o ritual de quebrar a noz com aquele som característico ficou indelevelmente gravado em nossa memória. Como abelhas zumbindo em volta da colmeia disputávamos um lugar para ver meu pai e minha mãe retirando as guloseimas da cesta.
            Aprendemos desde sempre que o Natal não é ou não deveria ser nada material. Mas éramos crianças sequiosas por novidades, já seduzidas pela cobiça dos olhos, inclinadas a ter mais do que ser. Assim, por mais que o menino Jesus dormisse todo arrumadinho lá no bercinho do presépio, nos fazendo lembrar de seu nascimento, nossos olhos encantados voltavam-se para a bendita cesta agora escancarada, com palhinhas espalhadas por toda a sala. Os presentes seriam abertos no dia seguinte, mas não tinham tanto encanto porque já havíamos feito nossos modestos pedidos (minha mãe nunca deixou que pedíssemos nada que não pudessem comprar) e, portanto, já sabíamos o que estava por dentro dos embrulhos.
Mas a cesta com seus celofanes coloridos e palhinhas mágicas, ah, ela nos fascinava e nos desafiava com seus mistérios a serem descobertos. E como diria Mia Couto: “mas não é assim mesmo a festa: feita de ilusão e brilhos maiores que as substâncias?” Se os produtos da cesta viessem numa mera caixa de papelão, eu não me lembraria de nenhum detalhe daquelas animadas noites natalinas. A cesta de vime e as palhinhas eram as estrelas mágicas da festa, afinal eram elas que mexiam com nosso imaginário, escondendo as nozes e doces e nos fazendo esperar por eles.
            E quem sabe esperar conhece o segredo da felicidade!          

"IN-FIRMUS" - Secretas sequelas




Embora conscientes de que perder os pais é da lei natural da vida, minha irmã e eu constatamos que nunca mais fomos as mesmas. A orfandade é algo mais sério do que possamos imaginar. Quando enterramos nossos pais, não enterramos apenas seus corpos, mas uma vida rica de lembranças, nossa infância, nossa história, nossa referência e tudo enfim. Minha irmã foi acometida por um intermitente frio no estômago e eu não mais dormi como antes. Meu rosto mudou. Não falo de rugas, isto é da idade, mas de um traço que identifiquei quando li Cecília Meireles: “Eu não tinha este rosto de hoje ... em que espelho ficou perdida a minha face?” Estávamos de luto, estávamos enfermas.
Evidentemente que fomos nos recuperando, meus pais já eram idosos, estavam doentes, mas não se pode negar que foi uma perda. O luto é real, varia de pessoa para pessoa de acordo com a sensibilidade de cada um, mas é real. E aprendi que o luto é uma espécie de enfermidade, não doença, mas enfermidade. E existe uma diferença entre enfermidade e doença.
Pedi à minha prima Lígia que relembrasse para mim a diferenciação entre doença e enfermidade que ela coloca tão bem em seu trabalho de doutorado e que repito com minhas palavras:
“In-firmus”, do latim, obviamente, significa enfermo: aquele que não está firme. Uma pessoa em luto não está firme, uma menina que se torna adolescente e sofre com a mudança também pode não estar firme, assim como uma gestante insegura pelo bebê ou ainda um bebê que fica sem mãe. Esta “falta de firmeza” é uma fase de transição, uma crise que certamente vai ser superada. Quando a pessoa não está firme e não procura modos de se firmar, pode adoecer. Assim, uma enfermidade pode progredir para uma doença que é a manifestação física da enfermidade.    
No inglês, “infirmity” é traduzido como “qualidade ou estado de estar enfermo, não firme, não forte, fisicamente fraco, vacilante.”
Dessa forma, pode-se dizer que há pessoas que não têm qualquer disfunção orgânica, mas o seu ser é que está doente.
Bem, voltemos ao luto. Gostei muito de um livro da Joan Didion (O ano do pensamento mágico) em que ela relata seu luto pela perda abrupta do marido. Eu já conhecia “O lado fatal” da Lya Luft em que ela transforma sua perda em poesia, mas para mim a Joan Didion foi mais real detalhando pormenores e sintomas que revelam seu grau de enfermidade. Ela diz que quem perde alguém fica com o olhar diferente somente reconhecível pelos que já viram o mesmo olhar em seu próprio rosto, “não importa o quanto possam parecer calmas e controladas, ninguém consegue ficar normal nessas circunstâncias”.
A pessoa que sofre uma perda fica frágil, vulnerável. Por isso deve ser acolhida e tratada com compreensão e carinho. Quando perdi meu pai, depois minha mãe, meu rosto perdeu um traço ou ganhou um traço diferente, não sei dizer, porque este tal traço não é visível aos olhos do corpo. Talvez este traço de que insisto tanto esteja realmente nos olhos ou no olhar como a Joan Didion disse; talvez na alma que abriga delicadas e secretas sequelas. Só a gente mesmo é capaz de captar esses dolorosos vestígios ou outra pessoa que já tenha passado por isso. 
 
   




domingo, 19 de novembro de 2017

ENXAQUECAS E POEMAS



            Há muitos anos eu sofria de terríveis enxaquecas que me maltratavam muito. Quase sempre eu tinha que ficar no pronto atendimento para receber soro por causa dos vômitos e muita dor de cabeça. Quando eu chegava lá, as enfermeiras se entreolhavam com ares de quem queria dizer: lá vem a mulher das enxaquecas. Quando era finalmente liberada, voltava pra casa me sentindo um espantalho destroçado depois de um tornado F5 com ventos de 250 a 330 km/h. Às vezes o bem estar demorava um pouco ou muito para voltar e eu me preocupava achando que nunca mais ia ficar bem. Então, eu relatava pra minha amiga como estava: estou melhor, mas não muito firme. E ela: é preciso paciência, você tá igual minha mãe fala: “tá bom, mas não tá gostoso.”
            Esta frase acabou sendo incorporada ao nosso já tão rico arsenal de códigos e expressões familiares, entre outros tantos. Quando estamos nos restabelecendo de alguma doença ou mal estar, ainda fragilizados no corpo e no espírito, costumamos dizer entre nós, irmãs e primas: já estou melhor, tá bom, mas não tá gostoso ainda, aludindo à frase de D. Cora. Ontem uma prima querida usou esta expressão para significar uma baixa em seu estado de espírito, o que me levou imediatamente para a época das enxaquecas. É muito difícil separar o que é do corpo e o que é da mente ou da psique ou alma, que seja. Quase sempre quando o corpo adoece, o espírito já estava enfermo e não nos dávamos conta disso. A homeopata sempre me perguntava: afinal o que é que você tem tanta necessidade de por pra fora, referindo-se aos terríveis vômitos. O corpo era curado com medicamentos, mas o espírito estava lá caladinho ainda enfermo.
Esta parte invisível de nós de repente irrompe das profundezas e grita por atenção, não admite carregar tantas dores e exige repartir a carga com o corpo. Enfim, nessa barafunda e complicada teia de que somos feitos sempre arrastamos atrás de nós uma longa comitiva de sequelas de perdas, de traumas por rejeições, de decepções e outras tristezas ou simplesmente ansiedade com a vida. E haja corpo para dar conta de nossas mazelas aparentemente invisíveis.
Quanto à enxaqueca daquela época, um dia sarou. E quando saramos nunca sabemos ao certo qual o remédio exato que fez efeito, pois sempre acontece de estarmos tentando mais de um procedimento. Certa vez, mergulhada naquela crise enxaquecosa, eu olhava desanimada para a jovem médica que me atendia. A menina esperta e competente me perguntou se eu conhecia certo medicamento que não era exatamente indicado para enxaqueca, mas que atuava bem nela. Resolvi experimentar. Nunca mais tive nem uma única crise. Uma dorzinha ou outra, porém nada que um comprimido pra dor não resolva. E vômitos nunca mais. Ocorre que por essa época comecei a escrever e talvez a escrita tenha aberto uma porta emperrada dentro de mim e mais outras tantas. Escrever faz bem para quem escreve e para quem lê. Escrever cura. Goethe já dizia: “se uma dor te aflige faze dela um poema”. Eu fiz.
Ainda resta uma terceira hipótese: meu marido convencido insiste em dizer que eu sarei depois que me casei com ele. E quem pode dizer que não? Ou quem sabe, talvez um pouco de tudo: um pouco pelo medicamento, um pouco pela escrita e muito pelo amor.  
Tá bom e tá muito gostoso!

           

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

CASAMENTO E REFORMA



            Estamos reformando nossa cozinha já há quase 4 meses, 4 longos e intermináveis meses. Meu marido é o pedreiro, eu, a ajudante de pedreiro. Ele sempre teve uma relação direta, nada secreta nem discreta com o concreto, enquanto eu sou do abstrato. Eu sou das letras, trato com as palavras, com as histórias. Ele é do cimento, da massa corrida, do tijolo sobre tijolo. Como não me lembrar de quando nos conhecemos e ele foi me mostrar seus diplomas com muito orgulho. Mostrou o de engenheiro, o de advogado e o de pedreiro num curso do Senac e me deixou claro que este diploma era o que mais prezava porque fazia o que mais gostava. Não foi difícil adivinhar que gostava do concreto pelo chapéu, botinas e por estar sempre assobiando uma canção enquanto trabalha, um amor. Depois de aposentado então, deu vazão aos sonhos concretos. Quer ver ele feliz? É inventar uma obra aqui e outra ali. Não é que ele já fez duas piscinas, direitinho, com azulejo e tudo?
            Bem, com relação à reforma na cozinha tenho me comportado bem, tenho conseguido manter a duras penas meu senso de humor com algumas avarias, reconheço, mas dadas as circunstâncias, minha nota de esposa doce tem sido em torno de 8,5. Só que com o tempo a gente vai se cansando de tanta poeira, tanto chão sujo, tantos panos, rodos e baldes. Cheguei no meu limite, por Deus. Tenho uma ajudante para a casa apenas uma vez em quinze dias, afinal sou aposentada também, e não tão velha que não possa trabalhar com os afazeres domésticos, mas limpar sujeira de reforma de casa? Estou velhíssima, centenária.
            Bem, temos utilizado a cozinha de cima que teria que ser usada apenas eventualmente, porém é a única que temos no momento, com uma pia a céu aberto, e improvisamos como deu pra fazer. Com este tempo de primavera já quente, minha indumentária para lavar a louça consiste num biquíni com capa de chuva por cima, chapéu e óculos de sol. Se o sol abre, tiro a capa, e aproveito para um bronze real nu e cru, o que faz bem para os ossos, minha vitamina D está pra lá de boa. Já no caso de chover, visto minha velha capa de chuva inglesa por cima do biquíni. Aliás, uma capa que era chiquérrima quando comprei em 1997. 
            Hoje eu estava azeda, um perigo, como dizia meu pai sussurrando (sua mãe está perigosa hoje!). Na hora do almoço, eu perguntei para meu marido: quando você sai da cozinha, você limpa os pés no pano de chão umedecido e no tapetinho de borracha e na passarela que coloquei lá? E ele: é claro! E eu: então por que a sala tem pegadas brancas por todos os cantos chegando aos quartos? Ele, erguendo os braços e se defendendo, disse: eu não fui. Depois do almoço ele foi dormir. E eu, depois de meu bronze lá em cima desci e percebi que as pegadas brancas estavam muito pequenas para serem dele. Caramba! Eram minhas, número 35 (eu calçava 36, tô diminuindo). Poxa, isso não podia ter acontecido. Confesso que quase trapaceei, fiquei tentada a pegar um pano, mesmo com as costas queimando, para apagar os vestígios das minhas pegadinhas, mas sou honesta, nada me restava a fazer senão enfrentar as consequências de minha língua afiada. Meu crime ficaria exposto com todos os detalhes sórdidos e requintes de crueldade. Minha esperança era de que ele não notasse, pois é desligado.
            Santa ingenuidade a minha! Desligado o quê? Não perde nada. Lá veio ele pegar no meu pé por causa de meu pezinho branco. Eu estava no computador quando ele irrompeu pela minha salinha e disse: aquelas pegadinhas brancas não são minhas não, são suas! Este pezinho 35 não é o meu não, olha o tamanho do meu pé! E eu: tá bom, fui eu, mas é que eu estava atarantada com o forno que chegou e a gente providenciando pra tirar da caixa, você me distribuindo afazeres e ordens, pega isso, pega aquilo. Deu no que deu. Agora, eu tive a dignidade e a nobreza de enfrentar meu engano de cabeça erguida, sem limpar as pegadas.
            Mas é claro que tudo sempre acaba num abraço apertado, com risos e muito amor. Mas gente, reforma com a gente dentro da casa, é de enlouquecer! Prudência, prudência, porque casamento é sempre um delicado vaso de porcelana que pode se romper inopinadamente. Cuida gente, cuida bem!        

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

A MORTE: O CONTRADITÓRIO DA VIDA



Há uns dias atrás fui a um velório. Observei com respeito a pessoa que havia partido. Tá bom, ele não estava mais ali, mas é assim que se faz, não é? Respeito com o corpo que o abrigou e que volta ao pó. Sua alma já alçou voo como um pássaro veloz e silenciou para sempre a sua voz. O corpo é só silêncio. A vida é realmente uma viagem muito curta e para nos proteger, por uma sábia intuição não nos damos conta disso. Não é bom pensar sempre na morte, mas é bom pedir a Deus que nos ensine a contar nossos dias. Não é bom ficar a todo tempo se lembrando da morte, por outro lado não é bom que nos esqueçamos dela. Já li em algum lugar que “O sol e a morte não devem ser encarados fixamente.”
O corpo sem vida é estranho. É tal qual uma casa onde viveu uma família por muitos anos com crianças ruidosas, cachorros latindo, quadros nas paredes, cozinha exalando aromas convidativos, campainhas tocando, músicas alegres. E então a família se muda. A casa permanece vazia. Quem lá morou pode voltar e se emocionar com o lugar onde viveu, mas certamente achará estranho que aquela vida toda tenha se passado ali. O silêncio é o que impera, a vida se foi.
Bem, por mais que vivamos muitos anos, se contamos em décadas, são poucas. O que são oitenta anos? apenas oito décadas. É muito tempo para um jovem que se sente eterno e pouco tempo para quem já viveu seis. Mas vamos vivendo, tocando o barco pra frente em direção ao mar. Alguma coisa nos move. Mesmo sabendo que vamos embora (olha só o eufemismo!), trabalhamos, olhamos a previsão do tempo, fazemos as contas do que temos que pagar, sondamos o saldo do banco, compramos a manteiga que está acabando e assamos o bolo no forno. Os pais continuam planejando ter filhos, sonhando com seus futuros incertos. Ou seja, vivemos como se fôssemos permanecer para sempre. É realmente um mistério.  
A vida não deveria fazer sentido, mas faz. Às vezes penso que somos todos loucos por viver tão imprecisamente e não foi em vão que Shakespeare disse: “Como são loucos os mortais!” (Sonho de uma noite de verão). Sim, loucos em busca de uma tal felicidade que às vezes nos dá o ar da graça, e quase sempre se esgueira fugidia e já não a encontramos mais, a não ser em “raros momentos de distração.” (G.Rosa). De repente ela nos acena toda camuflada como o gato de Alice no país das maravilhas e nos sorri divertida ao nos ver perdidos em nossa perplexidade.
E continuamos trabalhando, olhando a previsão do tempo, fazendo as contas que temos que pagar, sondando o saldo do banco, comprando a manteiga que está faltando e assando o bolo no forno. E se a vida não tem sentido, temos que dar sentido a ela. É por isso que escrevo porque é preciso fazer algo mais do que simplesmente viver. É preciso espantar a morte que me espanta e me amedronta, é preciso me encantar com o mundo que me consome, me fascina e me encanta. Ainda que a morte ronde tudo e a todos, é preciso conservar a ternura intacta.
E por ora é preciso viver enquanto a vida é tão generosamente a nós concedida.