domingo, 14 de janeiro de 2018

FELICIDADE SOBRESSALENTE














Temo ser feliz demais
Trato como hóspede minha felicidade
Sem muita intimidade.
Sei que sempre traz como lhe apraz a mala pronta.
No entanto visto minha melhor roupa
Ponho flores frescas na mesa
Faço poemas e pronto.
Mas se ela quiser, se assim lhe aprouver,
Deixo que bata asas
Como deixo com carinho que voe um passarinho.
Compartilho a felicidade em pedacinhos
E quando ela parte
Tenho sempre comigo alguma dose sobressalente
Que milagrosamente
Dura eternamente.



AQUI E AGORA



Já li inúmeros artigos e assisti a palestras que falam sobre “ser feliz aqui e agora”. Obviamente estamos carecas de saber que só temos o presente, mais precisamente o aqui e agora, tipo neste segundo, sem tirar nem por. O que já foi já foi e o que virá ao futuro pertence. Bem, tudo isso na teoria porque na prática ninguém fica feliz só por saber que só se é feliz aqui e agora. É uma luta, um treino, uma prática diária, de momento em momento. Na vida sempre estamos lidando com algo difícil e dificilmente transformamos dores em flores. Quando estou passando por algum apuro, medo ou decepção, minha vontade mesmo é aquela de apressar o filme e pular para a parte seguinte como fazemos ou podemos fazer ao assistir a um drama pungente, um filme de terror ou de suspense. Há algum tempo eu estava assistindo ao seriado com episódios isolados, o “Black Mirror” e fiz isso, fui adiantando o filme usando o controle remoto. Ah quem me dera ter um controle remoto para a vida real.
Não, aí vale o nosso controle mesmo. Não há outro. Acordei preocupada. Afinal, quem não acorda preocupado neste mundo maluco? Ameacei ficar com pena de mim, desenterrei águas passadas, remoí coisas que ouvi, coisas que gostaria de ter falado e não falei. Ameacei entrar num redemoinho de tristezas e amarguras. Aí lembrei-me das palestras do “aqui e agora”. Não custa nada tentar. Vamos à prática. Não vou piorar meu estado de espírito, ah, não vou fazer isso comigo não. De jeito nenhum. No way.
Meu marido fazia algo cheiroso para o almoço. Eu abri um vinho assim meio de semana, sem nada a comemorar. E abri um sorriso, a princípio, um sorriso torto, é verdade, mais parecia um esgar. Depois foi se endireitando. Falamos de rotina e dos homens das cavernas. Ponderamos se eles teriam ou não uma rotina em seu cotidiano como nós temos. Eu apostei que sim. O homem de Neandertal havia percebido que era melhor caçar de manhã e descansar pela tarde. Traria sua caça, acenderia o fogo, reuniria a família e todos comeriam ao redor da fogueira. Se falavam, grunhiam ou emitiam qualquer som, tanto fazia, eles se comunicavam de alguma maneira. Meu marido acrescentou que ao cair da noite, quando a luz da lua clareava a caverna (ai que lindo!), o homem primitivo decerto transaria com sua companheira ou companheiro, e depois talvez iria escrever sobre seu dia de caça nas paredes toscas de pedras, tal como fazem os escritores e poetas de nosso século em seus computadores. Nem todos os homens das cavernas eram escritores, assim como hoje nem todos são. Rimos de nossas conjeturas, nos inebriamos com vinho. Enfim, mandei a bruxa de volta pra floresta. Rir de bobeira tomando vinho em pleno dia de semana não é felicidade, apenas um momento feliz, se é que existe alguma diferença.
Amanhã começa tudo de novo. Sei que outras bruxas virão ao meu encalço. Bem, teremos que aprender a lidar com elas sem controle remoto. É possível viver um alegre dia comum, e talvez em algum dia do futuro nos lembraremos dos dias comuns e perceberemos que éramos felizes sem ter ganhado na loteria, nem vencido nenhum concurso, mesmo sem ser a 1ªbailarina do American Ballet Theatre ou ser uma contista como Alice Munro. A felicidade, se é que existe, é sim aqui e agora. 
     

sábado, 30 de dezembro de 2017

PARA O ANO NOVO



 
 Neste novo ano vou ser mais comedida
Vou mudar minha vida
Vou falar menos, ouvir mais,
Fugir das coisas sempre iguais.
Vou estudar filosofia
Ou quem sabe etimologia
Também fazer um curso de corte e costura
Ou de poesia
Conhecer o Everest
Ou mudar pra Budapest
Na verdade
Queria mesmo vez ou outra ouvir o barulho do mar.
Só não quero perder o encanto
Nem o espanto
De que preciso tanto
Pra sonhar e deixar a vida rolar.



sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

"LUCY IN THE SKY WITH DIAMONDS"



Mais um ano que se vai, mais um novo ano que vem. É claro que ao amanhecer do primeiro dia do novo ano, tirando a ressaca da noite de champanhes e comidas apetitosas seremos os mesmos, apenas um pouco mais velhos. Quando muito, trarei a lista de metas, projetos e desejos na primeira gaveta da mesinha do computador. E como o tempo agora passa aceleradamente por não sei qual fenômeno de aceleração planetária que já me disseram, lá para maio ou junho certamente constatarei que as metas e projetos não saíram do papel, tampouco os desejos terão sido realizados.
Não vou prometer nada não, contudo, sem querer ser assim tão pessimista, alguns desejos podem sim muito bem serem realizados, talvez, quem sabe, tomara. Afinal, a vida é sempre surpreendente. Não vamos murmurar. Tá ruim, mas tá bom, como diz meu marido.
Sobre os desejos, também não quero nem devo sair por aí dando a conhecer os anseios do meu coração. Sou um livro quase aberto, normalmente falo tudo em minhas crônicas, bem, quase tudo, parodiando Danuza Leão. Como a vida vai aos poucos se transformando numa estrada estranha e estreita, meu desejo para o ano, se fosse possível, seria embarcar numa nave espetacular ou como diria Raul Seixas, num disco voador para onde ele for e enxergar bem de longe meus problemas como meros pontinhos bobinhos no meio deste universo fenomenal. Problema é o sofrimento dos milhares de refugiados que este ano migraram como puderam fugindo da guerra, do preconceito e da maldita intolerância. E o sofrimento das crianças? Fala sério!
Voltando ao tal disco voador, eu chegaria a um planeta misterioso e fascinante onde obviamente eu poderia viver feliz como sempre quis, tal qual em Pasárgada. Já pensou? O rei em pessoa vem me receber, e me garante que ali eu serei cem por cento feliz. Ali minha vida será uma grande aventura, nada de coisas banais, só geniais.
Diz ainda o rei, meu amigo, que poderei andar de bicicleta, mas confesso envergonhada que não sei mais como se anda nessa geringonça de duas rodas. Já nem me lembro. Mas ele me rebate dizendo que aqui o tempo volta até quando a gente quiser, portanto saberei pedalar como quando era criança. Sendo assim topo subir até no pau-de-sebo, já perdi o medo de qualquer coisa. Menos de uma: montar em burro brabo! Isso não! Mas tomarei banhos de mar! Ah que delícia! Brincarei de espirrar água para o céu e as gotinhas se transformarão em diamantes e eu me sentirei como “Lucy in the sky with diamonds”.
Nunca mais serei triste. Quando de noite me der vontade de chorar, o rei em pessoa virá me alegrar. E trará flores de cores primores que nunca vi antes. E me contará casos tão engraçados, que me farão rir tanto, tanto, desses risos de criança que não param nunca, que fazem a gente chorar de tanto rir.
Falando sério, o que eu mais desejo para o novo ano? Viver uma vida em cada dia, embebedar-me de fantasia, viajar no tempo, deletar os sonhos maus, descobrir quem sou, ser feliz custe o que custar, amar, amar e amar em Pasárgada ou qualquer outro lugar, dentro ou fora de mim, onde sempre haverá risos mil mesmo no meio das tristezas, dificuldades, lágrimas e ainda que seja alguma pálida alegria que a vida nos presenteia em kits de sabedoria!  “Que venga el Año Nuevo con mucha inspiracion”!


sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

A HORA BENFAZEJA DA TARDE (Feliz aniversário!)



A HORA BENFAZEJA DA TARDE

            Gosto quando entro em casa pela tardinha e não pretendo mais sair. Respiro profundamente aliviada ao fechar a porta. Ao contrário de “Ana”, a personagem de Clarice Lispector no conto “Amor”, não temo a hora perigosa da tarde. Talvez porque eu já esteja mais velha e minha mãe dizia que com a maturidade as questões vão se resolvendo naturalmente. Talvez porque eu goste mais desta hora quando o dia ameaça ir embora para dar lugar à noite e eu sinceramente sou mais da penumbra, das sombras, das cores do crepúsculo e dos sussurros da noite. Ou talvez simplesmente porque “Deus me deu um amor no tempo da madureza ... pois que tenho um amor.”, como dizia Carlos Drummond.
            E o que é um amor? É alguém que veio ao meu encontro ou eu que fui ao seu encalço ou vice-versa e passamos a caminhar lado a lado. Não somos almas gêmeas, muito pelo contrário, somos almas infinitamente diferentes. Com ele aprendi a amar as diferenças. Eu padeço de TOC, ele de TOQUES de carinho, de amor, de magia, de abraços, de amassos e enlaços. Eu não sei cozinhar, ele é meu CHEF, não CHEFE, e sim aquele alquimista que transforma os alimentos em comidas maravilhosas.
            O que é um amor? Aquele cara que está em casa e quando eu chego eu digo: Beemm, cheguei. E eu sei que ele está lá em cima e que vai me acenar da escada. E se ele não faz isso eu subo e percebo que a casa é nada sem a sua presença. Aquele cara que quando eu me queixo de dor de cabeça, ele finge que vai tirar a dor, apertando um ponto no meio da minha testa e outro na coluna porque (ele me explica) ambos convergem para o meridiano tântrico que faz expandir a força em direção ascendente até o 7º Chakra, localizado no topo da cabeça.
            O que é um amor? Para mim é aquilo que chega pra gente “sempre mais do que vem nos milagres”. Agora consigo entender melhor este verso de Cecília Meireles.
            Contudo, só tive mesmo a certeza de que era de fato o amor de minha vida quando há muito saboreamos um café com pão assistindo ao por do sol em certa hora benfazeja da tarde. Senti uma felicidade que pulsava tão forte no meu peito que pensei que estava morrendo do coração. Nunca a vida me pareceu tão simples, tão certa, tão plena, tão perfeita! Fechei os olhos para reter aquele momento mágico e guardar no recanto mais secreto de minha alma. Era o meu amor que entrou em minha vida, ousado e gentil, alimentando minha devastada carência, minha alma e corpo sequiosos de amor. Só me lembro que tive uma imensa vontade de chorar de ternura. Entendi que isso devia ser o que dizem ser o tal do amor.   
            E quando chega certa hora benfazeja da tarde, eu me quedo, encantada, e assisto aos últimos raios do sol que se põe e ao milagre do dia que se torna noite sem que a gente nunca perceba e me sinto despudoradamente feliz, pois que tenho um amor.