domingo, 15 de abril de 2018

IDEIAS DE DEUS


IDEIAS DE DEUS
Misa Ferreira

Não é possível que este mundo tenha surgido espontaneamente
Como acredita quase toda gente.
Basta olhar em volta
A terra aqui, a lua ali,
Duas bolas girando suspensas no ar
A terra para morar
A lua para admirar.
E de vez em quando
Deus manda águas do céu para regar.
Também às vezes surge aí um arco de cores.
E as flores?
Escuro de noite, claro de dia.
E as estações que se alternam, pura magia!
O mar? Um grande mistério! Fala sério!
As ideias de Deus são geniais!
Foi Deus, ninguém mais!




NASCER E MORRER


NASCER E MORRER
Misa Ferreira

Dizem que a experiência de morrer é como nascer
Não sei dizer.
Não me lembro de ter nascido
Tampouco me lembrarei de ter morrido
Seja como for, é um caminho único e solitário
Uma canoa de uma só pessoa
Por mais que se queira ser solidário.
O que importa é que ao final a gente tenha vivido bem
Sem deixar se atropelar e nem ter atropelado ninguém.
Tenha procurado ser feliz
Ainda que a felicidade esteja por um triz
O que vier virá
O que tiver que ser será.
Por ora importa amar.
E pelo menos uma vez na vida, deixar rolar.

AO EROS COM CARINHO



Querida Lígia

Não somos donos de nada nem de ninguém. O Eros partiu hoje cumprindo sua missão aqui de eterno amigo e companheiro. Ao contrário das pessoas, ele não deixou nada que pudéssemos repartir, como roupas, calçados ou guardados. E, no entanto, ficou tanto dele dentro de seu coração. Como seria bom se pudéssemos deixar para quem amamos uma herança de um amor tão rico assim. Mas agora o momento é de dor, não poderia ser de outra maneira. A ausência do Eros na sua vida, assim como a ausência da Madona na vida da Agueda, deixou vocês perplexas, vazias, vulneráveis como um exército desfalcado. Não nos convence o argumento de que não deveríamos fazer luto pelos animais pelo fato de não serem pessoas. Não depende de nós, o luto é real e vou mais além, de acordo com o que já observei e atestei, esta dor pela perda de nossos pets às vezes é maior do que já sentimos pelos humanos que perdemos.
É que estes seres encantados, marotos, brincalhões, fidelíssimos, têm por nós um amor diferente de nossos pais, irmãos, companheiros e amigos. Seu amor é genuinamente puro, incondicional, sem julgamentos, único. Como bem disse Cristina Hauser para você, nossa relação de amor com os cães ou com qualquer outro bichinho está carregada de uma ligação especial, porque nós, humanos, somos diferentes. Carregamos tanta coisa conosco, não apenas materiais, mas um lastro de memórias, de sentimentos bons e maus, enfim vivemos com um fardo de tralhas atado a nós até à morte. E os animais nada carregam. Vivem o agora com intensidade, pureza e alegria, despojados de angústias futuras ou culpas. Por isso nos apegamos a eles, talvez quiséssemos ser como são. E quando se vão, basta uma única hora em que já não os temos para o mundo inteiro ficar vazio. 
Querida Lígia, o Eros, assim como a Joia e a Madona, estão no Céu dos cães, dos animais ou das pessoas, que seja. Por ora, para nós ficam a dor da saudade e o silêncio. O mesmo silêncio com que eles nos falavam, e nós sempre entendíamos, embora multiplicássemos nossas palavras como é próprio dos humanos. Como ainda estamos no mundo da matéria, a lembrança física é a que fica, a que dói. Quando estiver passeando com o Rajan, imagino que vá chorar muitas vezes lembrando-se do Eros que às vezes corria à frente, ávido por aventuras e, outras vezes, optava por vir mais atrás para se certificar de que você sempre estava presente ali, no comando. Afinal, nunca foi preciso a trela para prendê-los, os laços de amor e ternura sempre foram mais do que suficiente.
Boa viagem Eros. Valeu amigão!      


  

terça-feira, 20 de março de 2018

HONRA PISADA


De vez em quando pisam na minha honra
Aí o mundo acaba, desaba
Vem a mágoa, a dor de ser traída
De ser distraída e nunca andar armada
Depois relaxo, relevo e reflito
Como gosto de ser estimada e mimada
Como estou longe da perfeição.
Se entreguei minha honra a Deus
Por que a reivindico com tanta paixão?
E como fica o perdão?
Quem tem a alma carcomida pela traça
Não sabe que a figura deste mundo passa
E é quem mais precisa de oração
E de Deus a bendita graça
Perdoei. Já sarei.

ITAJUBÁ, DO "ENCONTRO AOS DESENCONTROS"



Comemoramos dia 19 de março mais um aniversário de Itajubá. Parabéns para a cidade que avança pelo tempo como uma senhora digna e simpática de quase duzentos anos e cem mil filhos, marcada por uma história de acontecimentos tão curiosos como dramáticos desde seu nascimento até os dias hoje. De fato, se Padre Lourenço da Costa Moreira não tivesse acordado, certo dia, acabrunhado com o pensamento de que sua paróquia deveria ser em local mais propício para o crescimento, Itajubá ainda seria em Delfim Moreira, lugar de incontestável beleza, mas de precárias condições topográficas. Partindo do princípio de que na História não existe “se”, era exatamente assim que deveria ter sido. O “Encontro” que remonta ao início da história de Itajubá foi o episódio da disputa travada entre as povoações do arraial de Nossa Senhora de Soledade de Itagybá, atual Delfim Moreira e arraial de Boa Vista de Itajubá pela posse da imagem de Nossa Senhora da Soledade. A tentativa de transferência da imagem e paramentos religiosos para a nova paróquia foi frustrada pelos fiéis que permaneceram em Delfim Moreira. Os paramentos vieram e a imagem de Nossa Senhora da Soledade ficou, sendo providenciada uma réplica para Boa Vista de Itajubá. Por muitos anos os itajubenses se emocionaram com a tradição de uma carreata entre as duas cidades, que levava e trazia a imagem da padroeira por ocasião de sua festa, acontecimento que fazia recordar o início da história de Itajubá e aumentava o carinho dos fiéis por Nossa Senhora da Soledade.
Padre Lourenço foi tão intensamente seduzido pela natureza exuberante e pela vista encantada que rodeava o rio Sapucaí que aqui acampou com os fiéis, certo de que não encontraria lugar mais adequado e promissor para estabelecer sua paróquia. Se (outro “se”) o padre, nos dias atuais, visitasse seu fascinante recanto, constataria que seu vale já não é tão verde e “suas várzeas já não têm tantas flores”, alto preço que pagamos pelo progresso que merecemos. Arrancamos muitas árvores, alargamos as ruas para que coubessem mais carros, estreitamos as calçadas, demolimos prédios antigos, sujamos os rios e abrimos buracos sem fim. Entretanto, essa moderna situação caótica não é privilégio de Itajubá, mas de quase todas as cidades que sofrem com o uso desordenado dos recursos naturais e com o desenvolvimento desenfreado a que nos expomos sem o perceber, pois os efeitos colaterais geralmente se manifestam mais tarde.
 
Nem tudo está perdido, sempre há esperança, deverá existir algum meio para conciliar progresso e natureza. Haveremos de encontrar uma solução para o colapso do trânsito e a ausência do verde em nossas ruas. Agora, neste 19 de março, não queremos cultivar o pessimismo, ao contrário, torcemos para que a cidade dê certo, afinal, somos seus filhos. Aquecemos e abrimos nossos corações para homenagear a Itajubá do presidente Wenceslau Braz, do Grande Hotel, do Colégio das Irmãs, da Fábrica de Armas, da “mulher de bronze”, dos famosos corais e velhos carnavais, a Itajubá que já tem parque com lago e tudo.
O lugar escolhido pelo padre Lourenço permanecerá. Se (último “se”) a vida se tornar insustentável pelos danos que causamos ao paraíso primordial, não adiantará procurar outro lugar para morar, uma vez que o planeta todo estará comprometido. Necessário será empreender uma nova busca como fez o padre, dessa vez não para encontrar outro sítio, mas sim para reaprender o caminho de volta, aquele que nos faz aproveitar as lições do passado, como resgatar o intuitivo olhar com que o padre Lourenço enxergou Boa Vista de Itajubá, como cultivar o verde de nosso vale, as flores de nossos canteiros e o amor pela cidade que nos serviu de berço e sempre nos abriga.